Origem, estudo e necessidade
No frontispício do túmulo de Allan Kardec encontra-se registrada a frase: “nascer, viver, morrer, renascer e progredir sempre, tal é a lei”. Não poderia ter sido mais clara esta sentença, ensinando sobre a realidade da reencarnação.
A etimologia da palavra reencarnação vem do latim, cujo significado é “entrar na carne novamente”, ou seja, adquirir um novo corpo físico para a vida na matéria densa. Finda a existência neste plano, o espírito dele se liberta e retorna ao mundo espiritual até que uma nova oportunidade surja para que ele volte e prossiga na sua caminhada.
O Espiritismo veio a esclarecer devidamente a realidade da reencarnação, que já era admitida, por exemplo, na Grécia antiga, há seis mil anos antes de Cristo através dos preceitos da religião chamada orfismo, que apregoava “serem as almas humanas divinas e imortais, mas condenadas a viver por um período em um círculo penoso de sucessivas reencarnações até que se depure dos erros que as fazem voltar ao mundo”.
No século V a.C., Sócrates e Platão, os precursores do Espiritismo, já mencionavam aos seus discípulos que a alma nasce (reencarna) muitas vezes até alcançar o seu destino, a graça celestial (a maior evolução possível). Por esta mesma época, na Índia, Sidarta Gautama, o Buda, cria o Budismo, religião que defende abertamente o renascimento do espírito em existências subsequentes.
Na Gália, por volta de 50 a.C., região que compreendia a França, Norte da Itália, Bélgica e Suíça, os celtas que lá viviam ao iniciarem-se nos mistérios, eram chamados de druidas, que formavam a religião, o sacerdócio e os altos conselhos. Acreditavam na imortalidade do espírito e na necessidade da reencarnação como instrumento de possibilidade para a evolução do ser.
Depois do Espiritismo, surgiram no mundo diversas doutrinas espiritualistas que acreditam na volta do espírito para nova vida na matéria, tais como a Sociedade Teosófica, fundada em 1875; a Seicho-No-Ie, de 1930; e a Legião da Boa Vontade, fundada em 1950. Muito presentes no Brasil, a Umbanda e o Candomblé, religiões de matriz africana, também defendem e pregam que a morte é apenas uma mudança de condição, mas que o espírito voltará em novas experiências no corpo denso.
Jesus e Suas Alusões sobre a Reencarnação
À época de Jesus, os judeus tinham uma ideia muito vaga sobre a reencarnação e acreditavam na ressurreição, admitindo assim a possiblidade de um homem que já tivesse desencarnado, pudesse renascer no próprio corpo, mas não sabiam de que forma tal fato poderia ocorrer. Todavia, a ciência comprova ser isso materialmente impossível, pois o corpo quando da falência dos órgãos morre e se decompõe.
O Mestre em seus ensinamentos várias vezes comentara com os mesmos sobre a reencarnação, sempre de uma forma alusiva. Vamos encontrar em O Evangelho Segundo o Espiritismo, nocapítulo IV, o diálogo entre Nicodemos, Doutor da Lei, e Jesus. Ele lhe dirige um elogio dizendo: “Senhor, eu sei que és o enviado por Deus, pois ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele”. Jesus então lhe responde: “Em verdade vos digo que ninguém pode ver o Reino dos Céus, se não nascer de novo, não te admires de que eu te haja dito ser preciso nasças de novo”. Nicodemos ainda pergunta, surpreso com a resposta: “Como pode um homem que já e velho, entrar no ventre de sua mãe e nascer de novo?”. Jesus lhe reponde: “Em verdade, em verdade, digo-te se um homem não renasce da água e do espírito não pode entrar no Reino de Deus, o que é nascido da carne é carne e o que é nascido do espírito é espírito”. Com essas palavras Jesus ensina que só o corpo procede do corpo, e que o espírito independe deste, porque já existe, e é imortal. A água simboliza o corpo, a vida na matéria, pois ela está presente em todos os organismos físicos, tendo o ser humano algo em torno de 70% de água na sua composição.
Após a transfiguração de Jesus, no Monte Tabor, em companhia de Tiago, João e Pedro, onde ali ele mostrou-se luminoso, resplandecente, com toda a dimensão de sua evolução, seus discípulos o interrogaram dizendo que os escribas diziam que Elias deveria voltar, ao que Jesus lhes respondeu: “Elias já veio e eles não o reconheceram, e lhes trataram como quiseram. É assim que farão sofrer o filho do Homem”. Elias foi um dos maiores profetas do Antigo Testamento, viveu 875 anos antes de Cristo. Mandou matar por decapitação os 450 sacerdotes adoradores do Deus Baal. Ao reencarnar como João Batista, primo de Jesus, morre decapitado, por ordem de Herodes. Importante realçar que Elias e João Batista traziam muita semelhança entre si, tinham o mesmo temperamento, entusiasmo na pregação, na forma de vestir-se e afrontavam as forças políticas administrativas de suas respectivas épocas.
Reencarnação: Algumas Provas
Os ensinamentos da doutrina, quer pelas informações dos espíritos, quer pelas palavras de Jesus, mostram-se mais do que suficientes para evidenciar a todos que a reencarnação é um fato. Entretanto, coube à ciência investigar o fenômeno e colher provas tão contundentes que somente o mais empedernido do descrente não apoiaria a sua existência.
Um dos mais notáveis pesquisadores sobre reencarnação foi o canadense Ian Pretyman Stevenson, desencarnado em 2007. Teve uma longa e próspera carreira, tendo sido psiquiatra, cientista, professor e diretor dos Departamentos de Parapsicologia e Psiquiatria Comportamental da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos.
Pesquisador incansável, dedicou mais de meio século de estudos sobre a reencarnação e reuniu mais de 2.600 casos narrados em seus 10 livros, com histórias absolutamente convincentes sobre o passado dos retratados, como nos episódios onde identificou várias crianças que traziam marcas de nascença semelhantes as marcas de parentes já falecidos e com traços de personalidade dos mesmos, levando a crer tratar-se dos mesmos espíritos agora em um novo corpo físico.
Uma das crianças por ele pesquisada, tinha sinais nos punhos e nas pernas, como se tivesse sido amarrada. Certa feita essa criança narrou que quando era viva e grande, foi amarrada e jogada em um poço. Em seu livro Casos Europeus de Reencarnação, encontramos a história da menina Blanche Courtain, de apenas cinco anos, residente com seus pais e uma irmã em Pont-à-Celles, um vilarejo a 40 km de Bruxelas. A garotinha, portadora de mediunidade, dizia a seus pais que via espíritos e descreveu os avós maternos e paternos com perfeição, entretanto, eles já haviam morrido uns 15 anos antes da menina nascer. Preocupados, os seus genitores levaram-na a um médico pois suspeitavam tratar-se de uma enfermidade, compraram medicação prescrita, mas Blanche recusou-se a tomar dizendo que tinha ouvido alguém dizer a ela (um espírito), que não deveria tomar o remédio pois não adiantaria, além disso, disse que havia sido farmacêutica em Bruxelas quando era grande, e passou o endereço e o nome da farmácia, para que confirmassem quando fossem até lá. Dois anos depois, em uma ida àquela cidade, sua irmã foi com Blanche ao endereço, e constatou que de fato o local era exatamente o indicado por ela.
O renomado escritor Hermínio Corrêa de Miranda (1920-2013), é considerado um dos pioneiros na regressão de memória. Em 1967, realizou uma pesquisa científica através de várias sessões com o jornalista e escritor Luciano dos Anjos, quando este, sob regressão voltou no tempo e narrou com detalhes a sua encarnação como Camille Desmoulins, que era formado em direito e jornalista e um foi dos artífices da Revolução Francesa, vindo a ser guilhotinado em 5 de abril de 1794. A série de regressões foi gravada e compilada no livro chamado Eu Sou Camille Desmoulins. A obra traz também um retrato fiel do ambiente de Paris à época do levante. Hermínio Miranda publicou ao longo de sua existência, outros livros abordando o tema reencarnação, tais como: A Noviça e o Faraó, A Reencarnação na Bíblia, Reencarnação e Imortalidade e As Sete Vidas de Fénelon.
Em seu livro A Noviça e o Faráo ele conta a história da britânica Dorothy Louise Eady (1904-1981), que desde garotinha nutria um amor imenso pelo Egito antigo, e para lá mudou-se quando adulta. Há milênios, em uma de suas reencarnações ela foi Bentreshit, uma jovem sacerdotisa do templo de Osíris, vindo a enamorar-se de Seti I, um dos mais bem-sucedidos faraós da XIX dinastia. Além de mostrar um inequívoco caso de reencarnação, o livro mostra um painel primoroso da notável civilização egípcia à época daqueles soberanos.
O pesquisador Dr. João Alberto Fiorini de Oliveira relata em seu livro Reencarnação- Investigação Científica, o caso de um garotinho de três anos que começou a fazer comentários espantosos, e numa dessas ocasiões ele disse à sua avó que quando ele era grande e ela pequenina, ele era seu pai. Certa vez comentou que tocava em uma orquestra e que morava em uma fazenda, perguntado se tinha visto isso na televisão, ele disse que estava se recordando de outra vida. Conforme ele crescia, as lembranças tornavam-se mais escassas, porém ainda continuavam a vir. Ao ouvir algumas palavras em espanhol e inglês, ele disse que já as conhecia pois no passado havia vivido na Espanha e nos Estados Unidos. O garoto sempre demonstrara um medo muito profundo do barulho dos fogos de artifício e trazia na perna uma estranha mancha escura. Então ele explicou que havia morrido em uma guerra em 1968 e fora ferido no citado membro, levando alguns tiros que o levaram à morte. Por dedução, como o menino conhecia bem o idioma inglês, o avô concluiu que ele morrera na guerra do Vietnã.
No mesmo livro encontramos a história de uma menina que a partir dos sete anos de idade chorava muito pois lembrava-se de uma cidade da Europa, Lisboa. Além disso, afirmava que a sua mãe não era sua mãe de verdade e lembrava-se da anterior. Formou-se em letras, e ao estudar a vida de Castro Alves, por quem nutria verdadeira paixão, viu certa vez o retrato de Eugênia Infante da Câmara, que fora amante do poeta; e sentiu uma emoção muito forte, algo inexplicável, parecia ser ela mesma. Preocupada e curiosa com o fato, procurou um centro espírita em busca de esclarecimento, e obteve a informação de que de fato havia sido Eugênia naquela encarnação passada.
Em 1983, na Inglaterra, o jornalista Ray Briant do Evening Post, havia recebido uma tarefa de escrever sobre paranormalidade, com enfoque na questão da reencarnação. Procura então pelo Dr. Joe Keeeton, famoso pelas suas experiências de regressão através de hipnose. Ray pediu ao médico que o hipnotizasse, então, o jornalista recordou-se de várias encarnações passadas, destacando uma delas, como o soldado Reuben Stafford, tendo participado da guerra da Criméia em 1854. Narrou ainda, ter sido condecorado por bravura e depois de reformado tornou-se barqueiro no rio Tâmisa, sofrendo um acidente que o levou à morte por afogamento. Sabendo sobre o caso, um casal de pesquisadores foi à Biblioteca de Londres e descobriu a lista de soldados da guerra da Criméia, e lá puderam ver o nome do soldado Stafford, com a devida observação que este quando reformado, morrera afogado nas águas do famoso rio inglês.
A holandesa Amira Willighagen (pronuncia-se uoloregan), nascida em 2004, quando tinha apenas nove anos de idade, apresentou-se em uma das edições do programa show de talentos Got Talent, na Holanda, e deixou os jurados sem fala, ao interpretar a ária O Mio Babbino Caro, da ópera Gianni Schicchi de Puccini. Sua apresentação ganhou notoriedade e foi vista no You Tube por mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo. A apoteose foi alcançada ao vencer o show de talentos, interpretando magistralmente a ária Nessun Dorma, da ópera de Turandot, também de Puccini. Destaca-se que Amira, jamais havia estudado música e muito menos canto.
Na milenar Índia, o garoto Lydian Nadhaswaram aos nove anos de idade tocou piano brilhantemente em uma apresentação as músicas de Chopin, sem nunca ter estudado música ou tampouco tendo feito curso para tocar aquele instrumento.
A menina brasileira Bibi Valverde de apenas onze anos recentemente em um programa de jovens talentos, fez o júri render-se à sua aptidão ao interpretar magistralmente a canção Redescobrir, da saudosa Elis Regina. Bibi ganhou a nota máxima por essa apresentação. Convém registar que ela jamais havia estudado canto.
Temos ainda os diversos casos de crianças em tenra idade já portadoras de enfermidades típicas das que sofrem os adultos, sem que tivessem feito algo para adquiri-las. Por que uns nascem na miséria, outros na opulência, sem que nada tenham feito para atingir essa condição? Por que uns nascem com o corpo perfeito, ao passo que outros vem com sérias deformidades físicas e também mentais? Só a Lei da Reencarnação esclarece, mostrando que sempre a Lei de Causa e Efeito se faz presente, ou seja, somos o resultado hoje das nossas ações de ontem.
Porque a Reencarnação é Necessária e Quais São os Seus Limites?
Todos nós, na condição de espíritos que somos, fomos criados simples e ignorantes, sendo que a verdadeira vida é a vida no plano espiritual, mas se é assim, por que então não poderíamos viver eternamente no invisível ao invés de vestir de quando em quando um corpo denso, de carne?
Em O Livro dos Espíritos, pergunta 132, Kardec questiona o espírito: “Qual é a finalidade da encarnação dos espíritos”? E obteve a seguinte resposta: “Os ciclos de encarnações [reencarnações], existe para que o ser atinja a perfeição possível, passando pelas dificuldades da vida, tais como os reveses e nisso consiste a prova”.
No mesmo livro, pergunta 166-b, Kardec indaga: “A alma tem muitas existências corpóreas”? A resposta do espírito é clara: “Sim, todos nós temos muitas experiências [na matéria]. Os que dizem o contrário, querem manter-vos na ignorância em que eles mesmos se encontram; esse é o seu desejo”.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo IV, item 25, encontramos interessante explicação: “A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia, a atividade ao qual são obrigados a exercer lhes auxilia no desenvolvimento da inteligência”.
Assim, estamos aqui para aprender e evoluir, justamente em um planeta cujos habitantes ainda se prendem ao egoísmo, orgulho, vaidade, ódio, inveja e outros vícios. Este é o grande desafio. E vamos evoluindo à medida que servimos ao semelhante, através da caridade e desapegados à transitoriedade da matéria. A reencarnação serve também para que possamos obter a quitação de nossos débitos contraídos em existência ou nas existências passadas.
Nem todos os espíritos que reencarnam na Terra vem na mesma condição. No capítulo III de O Evangelho Segundo o Espiritismo, o espírito Santo Agostinho, nascido Aurélio Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), ensina: “Nem todos os Espíritos que reencarnam na Terra vão para aí endividados. As raças chamadas selvagens, formadas por espíritos que saíram da infância estão na Terra em curso de educação para que possam desenvolver-se pelo contato com espíritos mais adiantados. Vem depois as chamadas raças semicivilizadas, formadas por esses mesmos Espíritos em fase de progresso. São os chamados indígenas, que se elevaram pouco a pouco”.
Não há um número pré-determinado de quantas reencarnações teremos pois sempre dependerá do quanto evoluirmos e quanto mais rápido for esse avanço, moralmente falando, menos passagens pela Terra teremos, do contrário, precisaremos ainda viver a experiência por ainda muitas outras vezes. Podemos comparar com um aluno aplicado e estudioso, este irá atingir ao seu objetivo mais rápido que aquele outro negligente e preguiçoso, que repetindo as etapas, demorará um tempo maior para atingir a sua meta.
A reencarnação é uma bênção divina, e há milhões de espíritos esperando pela oportunidade para aqui voltar. Portanto, se aqui estamos, devemos aproveitar ao máximo a oportunidade, cuidando de nosso corpo físico, mantendo-o sempre saudável e promovendo a nossa reforça íntima, superando nossos vícios morais e físicos para que possamos evoluir e tornar a nossa estada neste planeta menos espinhosa possível.
Por Gilson Tadeu Pereira
Bibliografia:
- O Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec
- Eu Sou Camille Desmoulans de Herminio Corrêa de Miranda e Luciano dos Anjos
- A Noviça e o Faráo de Hermínio Corrêa de Miranda
- Reencarnação, Investigação Científica do Dr. João Alberto Fiorini de Oliveira
- O Livro dos Espíritos de Allan Kardec
- O Céu e o Inferno de Allan Kardec
- Transição Planetária pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, em psicografia de Divaldo Franco
- Casos Europeus de Reencarnação de Ian Stevenson
- A Gênese de Allan Kardec.
- O Consolador da Revista Semanal de Divulgação Espírita, edição de 10/04/2011 por Luciano dos Anjos
