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Jan Huss, o Precursor da Reforma

No inexorável ciclo de reencarnações, tem o espírito a oportunidade de trilhar o caminho de sua evolução, através das experiências que vivencia, sempre sob a ação do livre arbítrio, imperativa Lei a qual todos nós estamos subordinados. As escolhas, voltadas para o bem ou para o mal, trazem consequências boas ou ruins, encurtando ou prolongando o ciclo das existências no corpo denso.

O personagem ora retratado, muito tempo depois, reencarnaria como um dos mais importantes personagens da história da humanidade. Jan Huss, cujo nome costuma ser aportuguesado para João Huss, nasceu em 1369, em Husinec, na Boêmia, atual República Tcheca. Foi padre, pensador, escritor, teólogo e é considerado como o precursor da Reforma Protestante, feita bem mais tarde por Martinho Lutero e João Calvino.

Fez seus estudos em Praga, bacharelando-se em Artes e Teologia. Assinava como Jan de Husinec, e por abreviatura, Huss, que no idioma tcheco significa ganso ou pato. Estudante muito dedicado, em 1393 tornou-se bacharel em Letras, no ano seguinte, conquistou o bacharelado em Teologia e, em 1396, o mestrado. Em 1400 foi ordenado padre. Tornou-se um excelente professor e foi posteriormente nomeado Decano da Faculdade de Filosofia e posteriormente, Reitor da Universidade. Importante mencionar que ele sofreu grande influência dos escritos do reformador inglês John Wycliffe.

Em 1400, passa a estudar o Cristianismo, sendo nomeado pregador da Capela de Belém, em Praga. Em agosto de 1346, havia subido ao trono Carlos IV, coroado como Rei da Boêmia. Nesta época, a Igreja passou a ter grande destaque, e sua opulência e privilégio levaram ao enfraquecimento das regras canônicas, ou seja, as leis e regulamentos para os seus líderes.

Começava a nascer as preocupações com relação à necessidade de se promover uma reforma religiosa, da qual mais tarde Huss se tornaria ferrenho defensor, em franca oposição contra os desregramentos do clero.

As Ideias de Jan Huss

Ousado, destemido, persistente e dotado de personalidade forte, ele se colocava contra alguns postulados da Igreja ao negar a influência Papal, afirmando que o sacrifício físico não era agradável a Deus e que o Criador não vendia milagres. Além disso, criticava as imagens de barro, comentando que as mesmas não tinham nenhum poder, visto que o poder era emanado por Jesus, e mais, não aceitava a chamada transubstanciação, cujo significado é a mudança da substância do pão e vinho no corpo e sangue de Jesus Cristo, sem perder a sua aparência exterior, no ato da consagração. Em uma de suas obras, De Ecclesia (A Igreja), ele afirmou que somente Cristo é o líder da mesma, e que o Papa, por ignorância e amor ao dinheiro pode cometer muitos erros.

Em função desses seus posicionamentos, as relações com o arcebispo começaram a esfriar e o clero, como era de se supor, mostrava profunda irritação com as suas ideias.

Por esta época reinava Venceslau IV, casado com Sofia da Baviera, a rainha tinha por ele grande admiração, e gostava de ouvir as suas prédicas, essa sua atitude causava um certo mal-estar na corte pois o rei era católico e muito conhecido pela sua devoção.

Pressionado

Diante das posições antagônicas de Huss com relação à Igreja, o Arcebispo acusou-o de heresia por seguir os textos do já citado John Wycliffe, e dirigiu sua queixa ao Papa Alexandre V, tendo esse em 1400 emitido uma bula (documento oficial) exigindo a retratação das ideias desse, a quem chamou de erros, bem como a apreensão de seus livros.

Jan Huss apelou, mas o Arcebispo não acatou, ordenando que os escritos do reformador inglês  

fossem queimados e excomungou aqueles que o seguiam. Entretanto, para desespero da Igreja, o povo ficou do lado de Jan, tendo esse por sua vez, continuado com as suas pregações na Capela de Belém. Neste momento, em 1410, o Papa Alexandre V é sucedido por João XXIII cujo papado estendeu-se até 1415.

Mesmo muito pressionado, Huss não se intimidou e continuou corajosamente a tecer críticas contra a Igreja, condenando o tráfico de indulgências – remissão de pecados através de pagamento feito pelo pecador – afirmando que o perdão das faltas só se poderia obter através de uma penitência e nunca por dinheiro, e ajuntava, dizendo que a infalibilidade do Papa era uma blasfêmia. Por esse seu posicionamento chegou a ser festejado como grande patriota e herói nacional, mas isso não o salvou do terrível futuro que o aguardava.

Para agravar ainda mais a situação, Jeronimo de Praga, principal discípulo de Huss e seu mais devotado amigo, proferiu um inflamado discurso ridicularizando a Igreja. Como consequência, foi estabelecida pelo rei de Nápoles, Ladislau de Durazzo, a pena de morte para quem ofendesse o Papa, e assim, três jovens seguidores de Huss foram decapitados.

A Armadilha

A pressão aumentou quando o Papa ameaçou a Boêmia de excomunhão, e Huss foi aconselhado pelo Rei Venceslau a deixar Praga, assim fazendo. Enquanto isso, o imperador Sigismundo, irmão do rei, sugeriu ao Papa João XXIII (não confundir com o Papa do início dos anos 60) a convocação de um concílio – reunião de autoridades eclesiásticas para discutir assuntos de doutrina, fé e costumes – que teve como palco a cidade de Constança na Alemanha, e a questão referente a casos de heresia foi também tratada.

O imperador prometeu a Huss um salvo-conduto caso ele aceitasse ir àquela cidade, e este aceitou. No caminho foi acolhido e saudado calorosamente por cada localidade pela qual passou. Chegando ao destino, foi vítima de uma armadilha pois foi acusado de querer sair da cidade, e então, injustamente foi detido e internado no Convento dos Dominicanos em um calabouço deplorável. Começava então a insidiosa ação contra Huss para silenciá-lo e tirá-lo do caminho, ele que tanto desagradava a Igreja naquele momento. Acusado de heresia, foi depois, transferido para outro local, a torre do Castelo de Gottlieben, na Suíça, propriedade do Bispo de Constança. Neste lugar abominável permaneceu enclausurado, definhando por longos sete meses.

A Condenação

Jan Huss foi levado à presença do Concílio, os meses de cativeiro fizeram com que se tornasse uma figura alquebrada, envelhecida. Manteve-se, porém, calmo, sereno e com muita fé. Obviamente, diante de figuras hipócritas que se consideravam como juízes, foi instado a retratar-se do conteúdo de seus artigos, o que recusou, mesmo diante da ameaça de morte. Foi então humilhado, tendo sido despojado de suas vestes sacerdotais, além disso, colocaram em sua cabeça em sinal de escárnio, uma coroa de papel onde lia-se a palavra “heresiarca”.

Suas obras foram queimadas em praça pública e Huss foi injustamente condenado à morte na fogueira. Entre seus livros, que podem ser adquiridos até hoje, versados em latim, francês, inglês e tcheco, encontramos Questio de Indilgentiis (1412), Explication de la Foi (1412), De Ecclesia (1413), Explication de Saints Evangelis (1413), e outros.

O Martírio

Em 6 de julho de 1415, Jan Huss foi queimado vivo, em Constança. Tinha apenas 46 anos de idade. Eram tempos de enorme intolerância religiosa, foi considerado como o primeiro mártir da liberdade religiosa, dono de uma fé inquebrantável, típica dos grandes espíritos, enquanto as chamas cresciam, ainda pôde dirigir um olhar à multidão e exclamar resignado, “vocês queimarão um ganso – aludindo ao seu nome – que é um pássaro modesto, mas em 100 anos virá um cisne, ao qual não poderão nem assar nem ferver”. O cisne ao qual ele se referiu era Martinho Lutero, reformador, que corroboraria com algumas de suas ideias.

Os Hussitas

A injusta morte de Huss provocou uma grande mágoa e revoltas na Boêmia. Os seus inúmeros seguidores, os chamados hussistas, tentaram impor as suas ideias. O descontentamento avolumou-se após a proibição de que o povo tcheco praticasse o culto religioso de acordo com as suas crenças. Muito tempo depois, os hussistas tornaram-se aliados dos luteranos.

O Reencarne de Huss como Allan Kardec

Não há como negar a obra de Huss, ele foi um grande educador, defendendo ideias avançadas e o novo testamento, na pessoa do Amado Mestre Jesus e seus ensinamentos.

Jan Huss, ao desencarnar de forma tão brutal, não estava sozinho, foi amparado pelos irmãos socorristas que de pronto o envolveram e o atenderam. Adormecido, foi encaminhado a um hospital no espaço para receber o tratamento adequado, como forma de acalmar o espírito recém-chegado de uma estafante romagem terrena, em cuja experiência, Huss pavimentara o seu caminho para a realização de uma importante missão em existência subsequente no corpo denso.

Espíritos informaram por via mediúnica sobre duas encarnações pregressas de Allan Kardec, em 1856, através da médium Caroline Baudin, dando conta de que o codificador vivera na Gália, sendo um sacerdote druida cujo nome foi adotado como pseudônimo pelo professor Hyppolite Léon Denizar Rivail. Em 1857, coube à médium Ermance Dufaux receber mensagem informando que após a encarnação na Gália, o espírito reencarna como Jan Huss.

Em dezembro de 1874, o Espírito lavater na obra Irradiações da Vida espiritual ditada para a médium Mme. W. Krell, tece esclarecedor comentário: “numa praça na cidade de Constança, um homem está na fogueira; a multidão furiosa lhe dirige injúrias e maldições. Multidão estúpida, cega, porque um homem lhe estendeu a mão. O homem na fogueira contempla essa turba com comiseração, mansuetude e piedade, não lastima a si mesmo, mas a ela, com sua ingratidão e ignorância. Qual é o homem que vindo à Terra com a missão de amenizar a miséria ou trazer a felicidade, através de seu trabalho e dedicação, não terá sofrido os ultrajes desse povo para o qual ele trabalha? Avancemos alguns séculos. Num pequeno apartamento da rua Sainte-Anne, um homem curva-se sobre uma avalanche de cartas, de brochuras; já não está sobre uma fogueira, mas abismado pela calúnia, assaltado pela crítica, vítima da inveja, ferido pela zombaria injusta e ignorante, este homem bem lembraria da fogueira de Constança, onde a turba que a cercava, selvagem, cheia de ira, lhe inspirava misericórdia e piedade”.

Em 22 de setembro de 1942, durante as homenagens dos 138 anos de nascimento de Allan Kardec, o Irmão X (Humberto de Campos), dita uma elucidativa mensagem à Chico Xavier, aqui resumida. Muito tempo após o desencarne de Huss, Jesus aproximou-se e disse a ele, amorosamente, informando-o sobre a sua empreitada na próxima encarnação: não serás portador de invenções novas, não te deterás no problema da comunidade material à civilização, nem receberás a mordomia do dinheiro, mas coloco em suas mãos a tarefa sublime de levantar corações e consciências. É indispensável estabelecer providências que amparem a fé, preservando os tesouros religiosos da criatura. Confio-te a sublime tarefa de reacender as lâmpadas da esperança no coração da humanidade. O Evangelho do amor permanece eclipsado no jogo das ambições desmedidas dos homens viciosos. Vai, meu amigo. Abrirás novo caminhos, descerrando a pesada cortina de sombras que vem absorvendo a mente humana. Não espere os louros do mundo, nem a compreensão dos teus contemporâneos”.

Assim, Jan Huss, recebeu com emoção e júbilo a elevada missão que lhe fora conferida.

Algum tempo depois, no século XIX, reencarna o espírito na figura de Allan Kardec, o codificador, trazendo a lume o Consolador prometido, o Espiritismo, conforme um dia anunciara Jesus.

Convém lembrar que Huss foi vítima de incompreensão e teve seus livros queimados em praça pública, o mesmo tendo ocorrido com Kardec, quando da queima de seus livros em Barcelona, no chamado Auto de Fé de Barcelona, em 9 de outubro de 1861. Allan Kardec também foi incompreendido, caluniado e perseguido pois muitos não entenderam a sua obra.

No IV Congresso Espírita Mundial realizado em Paris em 2004, em comemoração ao bicentenário do nascimento de Allan Kardec, Divaldo Franco psicografou em francês uma mensagem de Leon Denis, que claramente refere-se a Jan Huss como a reencarnação na figura de Allan Kardec, ao afirmar: “transferido da fogueira em Constança em 6 de julho de 1415, para os dias gloriosos da intelectualidade de Paris, Allan Kardec dedicou-se ao apostolado da doutrina ensinada e pregada por Jesus. Sua vida e obra testemunham a sua grandeza de missionário da Verdade”.

Por Gilson Tadeu Pereira

Fontes:

  • Revista Reformador, edição de setembro de 1978
  • O Consolador
  • A Missão de Allan Kardec de Carlos Imbassahy
  • Irradiações da Vida Espiritual pela médium Mme. W.Krell

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