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A Princesa Isabel e a sua Nobre Missão

O período da escravidão à época do Brasil Colônia retratou uma das mais tristes páginas da história de nosso país. Em O Livro dos Espíritos, pergunta 829, Kardec inquere ao espírito dizendo: “Há homens destinados a ser propriedade de outros homens?”, a entidade responde que “toda sujeição de um homem a outro é contrária à Lei de Deus. A escravidão é um abuso de força e desaparecerá com o progresso, como pouco a pouco desaparecerão todos os abusos”.

Ao Longo da História

Geralmente a escravidão era imposta a prisioneiros de guerra, tornando-se importante para a economia das civilizações antigas, tais como as do Egito, Índia e Mesopotâmia. Nos anos 1940, o regime nazista escravizava os seus prisioneiros obrigando-os a trabalhar até a exaustão e levando milhares à morte.

No Brasil

Muito tempo antes da chegada dos europeus ao Brasil, os índios que aqui viviam tinham por hábito escravizar os seus prisioneiros vindos de outras tribos derrotadas em conflitos. Quando os portugueses aqui aportaram, alguns desses prisioneiros foram a eles vendidos, pois era necessário haver mão de obra para o trabalho na lavoura, especialmente na produção de cana-de-açúcar e café. Entretanto, os colonizadores notaram que os índios não correspondiam às expectativas, rebelavam-se muito e não resistiam às doenças, principalmente a varíola e sua forte disseminação, levando a considerável diminuição da população indígena.

A Vinda dos Africanos

Os portugueses perceberam que era necessário encontrar uma alternativa, desta forma começaram a trazer para o Brasil trabalhadores africanos, vindos principalmente de Angola, Moçambique e, alguns, da Guiné. Alguns brasileiros também participaram dessa atividade, pois a mesma tornou-se lucrativa, uma vez que aqui chegando os africanos eram vendidos como mercadorias, constituindo-se assim o chamado tráfico negreiro.

Chegavam ao Rio de Janeiro, Bahia e Recife, em Porto de Galinhas. Antes da viagem, eram alimentados e engordados para que suportassem a jornada de longos 45 dias. Entretanto, eram colocados nos porões dos navios, sem a mínima higiene. Famílias inteiras viajavam nessas condições degradantes e desumanas, muitos, porém, não aguentavam a viagem, e morriam no caminho, às vezes de fome, doenças ou maus tratos, e eram simplesmente descartados no mar.

Realidade Sombria e Cruel

Muitos eram alocados para trabalhar nas fazendas onde cultivava-se a cana-de-açúcar ou nas minas de ouro, mas o péssimo tratamento dado a eles era o mesmo, tinham uma jornada de trabalho incremente, de até dezesseis horas por dia. Viviam em alojamentos escuros, chamados de senzalas, com total falta de higiene e ficavam acorrentados como forma de evitar que fugissem. A alimentação era péssima, só recebiam refeição duas vezes por dia e como vestimenta usavam roupas de algodão, muito simples. Quando porventura, se distraiam durante o trabalho estafante, eram submetidos à tortura, sendo amarrados a troncos de árvores e violentamente açoitados, às vezes até desmaiarem.

Bezerra de Menezes, em seu livreto A Escravidão no Brasil, lançado em 1869,comenta: “O escravo é considerado uma coisa, para aquele para o qual ele é propriedade, da qual o homem branco procura tirar todo o proveito possível. A forma cruel como são tratados, produz não somente o mal horrendo do embrutecimento e da degradação moral de uma raça humana. Abrutalhados pela violência que sofrem, não conhecem a honra, e que o ódio e o desejo ardente, insaciável de vingança, é o sentimento mais forte do coração desses irmãos para com a raça branca em geral, e para com o seu senhor em particular”.

Por que Sofreram Tanto?

O espírito Humberto de Campos, em seu livro Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho, elucida que os espíritos encarnados como africanos, e depois escravizados no Brasil, traziam graves dívidas contraídas em existências anteriores, quando no corpo denso participaram ativamente do movimento chamado de Cruzadas (1096 a 1272) na qualidade de combatentes cujo objetivo era a libertar a Terra Santa, inclusive Jerusalém, do domínio muçulmano. Foram também ativos participantes da Inquisição, no longo período de duração desta (1233 a 1821) como inclementes inquisidores.

Em outra experiência na matéria, haviam sido senhores feudais, à época do Feudalismo (476 a 1453). Nessa condição, tinham sob a sua responsabilidade, na sua maioria das vezes camponeses, que eram duramente explorados, trabalhando em regime de servidão e submetidos às exigências do senhor feudal.

Como o Pai concede a todos a oportunidade de ressarcimento de seus débitos, voltaram todos esses espíritos para a devida reparação das ações passadas. Entretanto, deveriam fazê-lo através do labor no campo, com paciência e resignação. Os abusos a que foram submetidos, porém, correram pelo livre arbítrio mal aplicado daqueles que sobre eles tinham o poder.

Ismael Vai a Jesus

No mesmo livro, encontramos uma importante passagem quando Ismael, o venerando espírito cuja tarefa é a de ser o Guia Espiritual do Brasil, conforme um dia assim o nomeou Jesus, a este se dirige com pungentes palavras, lamentando profundamente a forma com que os africanos escravizados estavam sendo tratados em nossa terra.

O Mestre assim a ele responde: “Ismael, asserena teu mundo íntimo no cumprimento dos sagrados deveres que te foram confiados. Bem sabes que os homens têm a sua responsabilidade pessoal nos feitos que realizam em suas existências isoladas e coletivas. Mas se não podemos tolher-lhes aí a liberdade, também não podemos esquecer que existe o instituto imortal da justiça divina, onde cada qual receberá de conformidade com os seus atos.

Havia eu determinado que a Terra do Cruzeiro [o Brasil], se povoasse de raças humildes do planeta, buscando-se a colaboração dos povos sofredores das regiões africanas, que deveria operar-se sem abalos perniciosos. O homem branco da Europa, entretanto, está prejudicado por uma educação espiritual condenável e deficiente. Desejando entregar-se ao prazer fictício dos sentidos, procura eximir-se dos trabalhos pesados da agricultura, alegando a existência dos climas impiedosos.

“Eles terão a liberdade de humilhar os seus irmãos, em função de seu livre arbítrio, mas os que praticarem o nefando comércio [o tráfico negreiro], sofrerão igualmente o mesmo martírio nos dias do futuro, quando forem também vendidos e flagelados em identidade de circunstâncias”.

O Longo Período da Escravidão

A escravidão no Brasil iniciou-se em 1530 e durou 350 anos, neste período, estima-se que 4,5 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil, e escravizados.

Os Abolicionistas

Com o passar dos anos, algumas proeminentes figuras da história nacional colocaram-se contra o regime de escravidão no Brasil, pois entendiam que os abusos sofridos pelos africanos escravizados tinham chegado a um ponto insuportável, e que os mesmos deveriam ser libertados. Os defensores desse pensamento acabaram por criar um movimento chamado de Abolicionismo. Eles se manifestavam através de discursos, artigos em jornais e organização de manifestações políticas.

Eram homens notáveis, como Joaquim Nabuco (1849-1910), nascido em Recife, era poeta, orador, escreveu o livro A Escravidão e o Abolicionismo, afirmava que “a escravidão no Brasil era a causa de todos os vícios políticos e fraquezas sociais; um obstáculo invencível ao seu progresso”.

Rui Barbosa, (1849-1923) era baiano, foi advogado, jurista, ensaísta, orador, diplomata. Defendeu a abolição através de sua postura em defesa da liberdade.

José do Patrocínio (1854-1905), nascido no Rio de Janeiro, era filho de uma escrava, foi jornalista, médico, e em 1882 fundou o jornal A Gazeta da Tarde, e a Confederação Abolicionista.

Bezerra de Menezes (1831-1900) era cearense, foi médico, redator, político e depois, um dos maiores vultos do Espiritismo, chamado de “o médico dos pobres” pela sua bondade e dedicação ao semelhante. Escreveu o livreto A Escravidão no Brasil e as medidas que se devem tomar sem danos à nação.

Castro Alves (1847-1871) era baiano, foi advogado, escritor e poeta.Foi um dos mais atuantes defensores do fim da escravidão. É autor dos pungentes poemas, Navio Negreiro A Canção do Africano, cujos pequenos trechos colocamos aqui:

“Era um sonho dantesco…o tombadilho.

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros…estalar de açoite…

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar…

E chora a dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece.

Outro, que martírios embrutece.

Cantando, geme e ri”

A Canção do Africano

“ Lá na úmida senzala,

Sentado na estreita sala,

Junto o braseiro, no chão,

Entoa o escravo o seu canto,

E ao cantar correm-lhe em pranto

Saudades do seu torrão…

De um lado, uma negra escrava

Os olhos no filho crava,

Que tem colo a embalar…

E à meia voz lá responde

Ao canto, e o filhinho esconde,

Talvez, para não o escutar”

A Lei Eusébio de Queiróz.

Nascido dezembro de 1812, no Rio de Janeiro, e desencarnado em maio de 1888, Eusébio de Queiróz Coutinho Matoso da Câmara foi um magistrado e político brasileiro, dedicou-se com afinco para pôr termo ao drama dos escravizados e a reprochável instituição da escravidão no Brasil. Exerceu o cargo de Ministro da Justiça, tendo sido o autor de uma das mais importantes leis do império, a lei Eusébio de Queiróz, promulgada a 4 de setembro de 1850 que proibia o tráfico negreiro da África para o Brasil.

A Princesa Isabel e a Sua Nobre Missão

Nascida no Rio de Janeiro em 1846 e desencarnada na França em 1921, cujo nome era extenso como hábito na época, Isabel Cristina Leopoldina Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, assumiu a regência aos 25 anos de idade, enquanto D. Pedro II realizava a sua primeira viagem à Europa, em 1871, que veio a constituir-se em um momento de suma importância na história de nosso país, pois neste ano a Princesa Isabel assinou a Lei do Ventre Livre, precisamente em 28 de setembro, estabelecendo que os filhos de mulheres escravizadas ao nascerem após essa data, seriam considerados como livres. Essa Lei veio a limitar a duração da escravidão no Brasil.

Este fora um primeiro passo para que os pobres escravizados pudessem finalmente libertar-se. A Princesa Isabel, ao reencarnar, viera com a nobre tarefa de libertá-los de vez, abolindo a escravidão do Brasil. Ismael, na qualidade de guia espiritual do nosso país, trabalhou ativamente para que assim ocorresse, tendo sido sobejamente ajudado pelos Irmãos de Luz, que estavam intervindo com o objetivo de o processo ocorrer sem violência.

Liberal, a Princesa Isabel unira-se aos abolicionistas, que formalizaram a ela o pedido para que pusesse fim àquele martírio daquelas pobres criaturas.

Em 13 de maio de 1888, um domingo, ela deixa Petrópolis com a certeza de que a última votação para de um projeto para a abolição sairia vitorioso. E assim ocorre. A princesa Isabel então, assina a Lei Áurea, com uma pena feita especialmente para a ocasião, pondo fim ao regime de escravidão no Brasil. Foi um dos momentos mais marcantes de nossa história. É aclamada pelo povo do Rio de Janeiro e passa a ser referida como a redentora. Isabel tinha pensamentos arrojados para a época, tais como o direito ao voto feminino e a reforma agrária.

Pouco mais de um ano após, é instaurada a República no Brasil, partindo para o exílio na França, Isabel profere uma frase que ficou famosa: “Mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar os escravos do Brasil”.

Naquele país tem uma vida tranquila e transforma a sua moradia, o castelo de seu marido Conde d´Eu, em uma espécie de embaixada do Brasil.

Ao desencarnar em 1921, Isabel retorna à Pátria Maior em paz, após ter cumprido fielmente a missão a ela confiada.

Mensagem de Isabel

Em uma inequívoca demonstração de humildade e evolução, Isabel apresenta-se no plano espiritual como uma preta-velha, pois em outra existência ela mesma reencarnara na condição de uma escrava. É de sua autoria essa emocionante mensagem, recebida pela já falecida médium Sra. Irene Carvalho, na instituição chamada Comunhão Espírita de Brasília:

“Diletos irmãos,

Abençoe-nos Jesus em Sua Luz. 

O momento é de profunda reflexão. Neste instante, ainda ouço o clamor do negro escravo, que mesmo depois de liberto chorava suas dores, sem ter para onde ir. Reporto-me a esses dias com muita emoção.

Ao assinar a Lei Áurea, a minha mão foi conduzida por outra mão mais forte. Uma enorme força brotou dentro de mim e mesmo que eu quisesse não poderia retroceder. Foi um momento de enorme emoção e eu chorei.

O Brasil é sem dúvida um país de grandes dimensões e haverá lugares para todos, se houver, realmente, uma compreensão maior por parte daqueles que o governam. Dirijo-me a eles, em especial, afirmando que a palavra empenhada recebe na Espiritualidade o selo dos grandes compromissos, severamente inadiáveis. Que ninguém se iluda, porque a cobrança dos débitos será sempre feita.

Que a semeadura do Evangelho chegue também aos corações dos políticos e atinja as crianças que percorrem as ruas dos grandes centros em busca do pão e da verdade, escravas da fome e do vício. Para elas a única verdade é fugir do abandono. Alimentá-las não é o suficiente, mas sim possibilitar-lhes um mundo melhor. Uma vida equilibrada para os escravos dos novos tempos só será possível numa sociedade voltada para o bem e a fraternidade.

Quem não recebe amor não o pode dar a outrem. Os que fecham os olhos a essa dura realidade, de adultos e crianças subjugados a condições subumanas, e especialmente os que se comprazem na existência de tal condição, por fazer dela sua base de lucro e promoção pessoal, estes, sem dúvida, podem ser considerados os novos feitores, como os de outrora…

Mãos à obra, brasileiros. Que o anjo Ismael continue a proteger essa terra gigantesca, que dia a dia se destaca das demais, convergindo tantas atenções e atraindo múltiplas famílias estrangeiras que jamais a deixam.

Que o 13 de maio seja lembrado como uma data simbólica, que nos desperte para as mais nobres realizações de libertação do ser humano e não como um grito de angústia.

Dia há de chegar em que todos na Terra se abraçarão como irmãos.

Muita alegria!

Mãe Isabel.”

Por Gilson Tadeu Pereira

Bibliografia:

Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho pelo Espírito Humberto de Campos em psicografia de Francisco Cândido Xavier

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