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A Notável Médium Yvonne do Amaral Pereira

Era véspera de Natal, de 1906. Em um sítio de sua avó materna em Vila de Santa Tereza de Valença, hoje Valença, no Estado do Rio de Janeiro, nascia Yvonne do Amaral Pereira. Seus pais, Manoel José Pereira Filho e Elizabeth do Amaral Pereira, eram espíritas e não poderiam ter recebido presente melhor, um dia antes da comemoração do nascimento do Cristo.

Um Grande Susto

Com apenas um mês de vida, a pequenina Yvonne tem um acesso de tosse, e sofre um ataque de catalepsia (morte aparente). Devidamente examinada pelo médico, este atestou que o bebê havia deixado esta vida. Consternação geral tomou conta da casa, providenciaram o caixão e vestiram o corpinho com singelo vestidinho. Entretanto, sua mãe Elizabeth, mulher de inabalável fé e devota de Maria Santíssima, não queira aceitar que sua filhinha havia morrido, assim, retira-se por alguns instantes e ora fervorosamente à veneranda entidade, para que trouxesse o seu bebê de volta. Minutos depois retorna, aproxima-se do caixão e toca suavemente no rostinho de Yvonne, como pretendendo acordá-la, e ela então desperta daquele sono profundo, chorando. O fenômeno de catalepsia ocorreria ainda algumas vezes ao longo de sua vida, sem que isso causasse qualquer trauma em seus familiares, pois já estavam acostumados. Os bons espíritos, sempre a acompanhá-la, ajudavam-na a despertar.

Vidas Passadas

O pai de Yvonne, seguindo uma tendência de apreciável número de pessoas, quis saber o que ela teria sido em encarnações pregressas. Foi informado sem detalhes adicionais que ela vivera no Egito antigo, na Pérsia, Roma antiga e na Bélgica. Entretanto, com o passar do tempo ela mesma começou a recordar-se claramente de uma encarnação na Espanha, no século XIX, entre 1830 e 1870, durante o reinado de Isabel II. Era filha de um homem chamado Charles, a quem considerava o seu verdadeiro pai. Isso lhe trazia um grande desconforto interno, pois sentia os pais e os irmãos como estranhos, achando que sua verdadeira família e casa eram aquelas da Espanha. Além disso, era constantemente espancada por um de seus irmãos diante da mais insignificante situação.

A perfeita lembrança dos tempos em que viveu naquele país a perturbavam tanto que até os dez anos de idade viveu sob os cuidados de sua avó materna, pois a sua mãe tinha que cuidar de seus cinco irmãos e não dispunha de tempo para dar a Yvonne a atenção necessária.

Um Lar Muito Modesto

Manoel José Pereira Filho era um homem muito generoso de coração, não ambicionava adquirir bens, e em função disso era um péssimo negociante. Não tinha perfil para negócios, nem visão empresarial e, por três vezes, foi à ruína. Tornou-se então funcionário público até o final de sua vida.

Diante disso, Yvonne foi criada conhecendo a pobreza, a carência, mas teve desde cedo uma lição de vida proporcionada pela bondade de seus pais, que acolhiam com carinho e até hospedavam, pessoas sem recursos. Aprendeu assim a respeitar o sofrimento do semelhante, entendendo a necessidade de praticar a caridade, mesmo que para isso os meios disponíveis se mostrassem escassos.

Uma Encarnação Difícil e Redentora

A encarnação de Yvonne foi expiatória, ou seja, muito difícil, com muita luta e restrições, em função de um ato impensado quando de sua encarnação na Espanha, ao atirar-se nas águas do rio Tejo em Portugal, dando cabo à própria vida. Chamava-se Leila de Vilares Montalban Guzman, e havia perdido uma filhinha de seis anos de idade. As várias crises de catalepsia enfrentadas ao longo de sua vida, foram reflexos daquela atitude infeliz por ela tomada.

Como forma de reparar o erro cometido, Deus, na sua bondade infinita, concedeu a ela a oportunidade de redimir-se através do trabalho incessante na prática da mediunidade e da caridade material e moral. E ela o fez condignamente, de uma maneira abnegada, vivendo cada momento de sua vida sempre voltada para auxiliar incondicionalmente ao próximo.

Nosso Senhor dos Passos

Contava Yvonne com apenas oito anos de idade quando então tem um desdobramento (um fenômeno que ocorre durante o sono, onde o espírito vê, sente e interage com outras entidades). Yvonne adentra em uma igreja, e lá para diante de uma imagem do Nosso Senhor dos Passos, que mostra Jesus carregando a cruz, representando todo o seu sofrimento e o caminho percorrido até o Gólgota. Ela pede socorro à imagem, pois sofria muito com as lembranças da vida passada na Espanha, para onde queria voltar. Então observa-se um fenômeno de criação fluídica, pois um espírito elevado ali presente, usando os fluidos do ambiente e da própria Yvonne, mentalmente manipula esses elementos e transforma-se em Nosso Senhor dos Passos. O benevolente espírito então docemente estende-lhe as mãos e diz a ela: “Vem comigo, minha filha, será o único recurso que terás para suportar os sofrimentos que te esperam”. Foi uma orientação de ordem superior, um encorajamento do qual Yvonne necessitava para poder realizar a sua tarefa mediúnica, marcada por sacrifícios pessoais e abnegação.

Instrução Religiosa e Escolar

Tendo nascido em um lar espírita, recebeu do pai as primeiras lições sobre a Doutrina, sua prática e aprendeu o hábito salutar de fazer evangelho semanalmente, quando então toda a família reunia-se para a atividade.

Na escola, as professoras que teve eram católicas, chegou a frequentar o catecismo, mas não concordava com os ensinamentos ministrados, porém, sempre respeitou, assim como o fez com todas as religiões.

Uma das frustações vividas por Yvonne foi o fato de ter conseguido apenas fazer o primário, pois o seu pai, na qualidade de funcionário público, não reunia condições financeiras para proporcionar a ela que desse sequência aos seus estudos. Jamais o fato despertou qualquer sentimento de revolta.

Espírito cuja tenacidade sempre foi ser uma constante em sua existência, Yvonne estudava sozinha, até de madrugada.

 Paixão pela Leitura e pela Escrita

Esse enorme e exemplar esforço possibilitou que aos oito anos de idade, lesse o seu primeiro livro, Marieta e Estrela, obra espírita, com um trecho desenrolado na sua querida e saudosa Espanha.Na sequência leu outros, como por exemplo, A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, Iracema e Ubirajara, de José de Alencar, Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, o renomado escritor alemão, e obras de Arthur Conan Doyle, o famoso criador do personagem Sherlock Holmes.

O desenvolvimento proporcionado pela leitura permitiu a Yvonne que tomasse gosto pela literatura, assim aos doze anos de idade, já escrevia contos e poemas em prosa, reconhecidamente de uma forma mediúnica conforme ela mesmo afirmou, vendo sempre ao seu lado o Espírito Roberto de Canalejas, que havia sido seu marido quando de sua encarnação na Espanha.

Quando jovem, escreveu para vários jornais, como por exemplo: A Tribuna, de Lavras, O Cruzeiro, da cidade de Cruzeiro em São Paulo, O Clarim, de Matão, dirigido à época por Cairbar Schutel, eminente espírita, que tornou-se seu grande amigo, em Lavras, para o jornal Luz e Verdade, que os adversários do Espiritismo chamavam maldosamente de Trevas e Mentiras.

Além disso, escreveu de 1960 a 1980 várias matérias para o jornal O Reformador, da FEB, usando o pseudônimo de Frederico Francisco, em homenagem ao Espírito Frédéric François Chopin, notável compositor polonês. São artigos de conteúdo doutrinário, sobre mediunidade, obsessão e caridade. Compilados, ensejaram o lançamento em 1979, do livro À Luz do Consolador, também autobiográfico.

Mediunidade Precoce

A mediunidade apresentou-se à Yvonne de uma forma natural, e precocemente, pois aos cinco anos de idade, já via os espíritos tão claramente que pareciam estar encarnados, e com eles falava. Um desses espíritos era o venerando Bezerra de Menezes.

Aos doze anos, ganha de seu pai O Evangelho Segundo o Espiritismo, e O Livro dos Médiuns. Certa vez comentou que sempre acatou e venerou, toda a obra da Codificação Espírita.

Um ano depois, participa pela primeira vez de uma sessão mediúnica e psicografa uma mensagem do Espírito Roberto de Canalejas, versando sobre suicídios. Este espírito sempre lhe acompanhou desde a tenra idade.

Yvonne era possuidora de vários tipos de mediunidade, a saber:

  • Médium psicógrafo: a vida inteira, na qualidade de receitista, trabalhando até a madrugada. Nesta tarefa, sempre foi assistida por elevadas entidades, como Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio, e também por Charles e Roberto de Canalejas.
  • Médium de psicofonia: permitia que espíritos obsessores e suicidas, se manifestassem, falassem através dela. Sempre demonstrava muito carinho e compreensão para com eles em função da difícil condição em que estavam.
  • Médium de efeitos físicos: quando permitia que alguns espíritos se materializassem, isto é, apresentavam-se como se encarnados estivessem. Entretanto, foi aconselhada por Bezerra de Menezes e Charles a abandonar a atividade, pois não viam necessidade de sua dedicação à modalidade.
  • Passista de cura: exercendo a atividade durante cinquenta anos, chegando mesmo a curar obsidiados. Foi sempre muito ajudada pelos espíritos Eurípedes Barsanulfo e Bittencourt Sampaio, nos tratamentos a deficientes físicos.
  • Médium orador: de 1927 a 1971, recebendo as ideias diretamente dos espíritos.
  • Médium de desdobramento: nesta condição, via os espíritos claramente e interagia com eles.

E foi através da mediunidade que Yvonne Pereira conseguiu curar doentes, não só do corpo como da alma. Com os seus aconselhamentos, impediu suicídios, reconciliou casais, e é claro, esclareceu diversos espíritos sofredores.

 Lendo no Cemitério

Ver e conviver com os espíritos tornou-se para Yvonne Pereira algo tão comum que a visão deles não lhe causava nenhuma surpresa, ou temor, mesmo quando se tratasse dos sofredores.

Dos treze aos quatorze anos de idade, residindo em Barra Mansa, costumava ir a um cemitério próximo, a fim de ler com tranquilidade. Então, a vidência ficava acentuada, e podia observar entidades atormentadas por ali vagando, desconhecendo o seu estado de desencarnadas, cabelos desalinhados, tristes, algumas sentadas no próprio túmulo, outras aterrorizadas, feias, desoladas. Neste momento, orava por elas pedindo para que a misericórdia divina pudesse envolver e socorrer a todas, dando a elas o esclarecimento e encaminhamento necessário para obterem a sua libertação daquela angustiante condição.

O Trabalho nos Centros Espíritas

Ao longo de sua redentora tarefa, Yvonne trabalhou como médium nas seguintes casas espíritas: Centro Espírita de Lavras, em Minas Gerais; Casa Espírita de Juiz de Fora, fundou ali uma biblioteca, evangelizou crianças e ensinou trabalhos manuais para moças; também no Centro Espírita Luís Gonzaga, em Pedro Leopoldo, fundado por Chico Xavier; e já no Rio, na União Suburbana e no Grêmio Espírita de Beneficência.

As Visitas de um Gênio da Música

Corria o ano de 1931, certa feita, estava Yvonne escrevendo quando um perfume de violeta envolve todo o ambiente, então ao seu lado, surge um espírito tão claramente que parecia mesmo encarnado, era Frédéric François Chopin, o célebre pianista polonês radicado na França e considerado como um dos pianistas mais importantes da história.

Comunicou-se com ela falando que se sentia muito querido pelos brasileiros, e isso o lhe deixava muito feliz, mas que sentia falta de preces que deveriam ser dirigidas a ele. Em outro contato, esse ocorrido em 1958, ele pede a Yvonne que estudasse piano para que pudesse ditar a ela novas composições, pois a linguagem da música era sua preferida. Porém, a grande médium não pôde atendê-lo, pois exercendo a profissão de costureira, não dispunha de recursos financeiros para tanto.

Abnegação

Durante oito anos no Rio morou sozinha, e organizou um posto mediúnico na própria residência, próximo a uma comunidade, ali atendia aos moradores, dava passes, fornecia remédios, aplicava injeções em doentes pobres, costurava para eles, dava aulas de costura e bordados a jovens. Tudo sem cobrar um tostão sequer. Foram anos muito difíceis, testemunhando a terrível situação de muitos.

Os Livros

A redentora e exemplar tarefa de Yvonne Pereira completou-se através da psicografia de dez obras de quatro autores espirituais: Camilo Castelo Branco, Bezerra de Menezes, Charles e Léon Tolstoi; mas também pela autoria de outros onze livros.

A fim de receber os livros psicografados, os autores espirituais afastavam-na do seu corpo físico, em um fenômeno de desdobramento provocado, e a levavam a locais onde se desenrolaria a ação. Assim, esteve em Portugal, Espanha, França, Alemanha e Rússia. Então, como em um filme, assistia às peças a serem escritas, via e sentia a emoção dos personagens, enquanto uma entidade ia narrando o drama com precisão.

Na França, pôde assistir às cenas da noite de São Bartolomeu, em 1572, quando os huguenotes foram mortos pelos católicos. Em Portugal, pôde ver cenas da Inquisição no século XVI. E visitou regiões muito sombrias do astral inferior.

Yvonne narra em seu livro À Luz do Consolador: “Ainda em minha primeira juventude, recebi ordem espiritual para me submeter ao espírito Camilo Castelo Branco e receber dele um trabalho sobre suicídio. E assim escrevi Memórias de um Suicida, em 1926”.

Este livro só veio a ser publicado em 1956, em função de uma série de dificuldades enfrentadas por Yvonne. A princípio a Federação Espírita Brasileira sequer quis ler os originais, e depois, porque Léon Denis havia dito à autora que os originais precisavam ser revistos e ter a necessária feição doutrinária. Coube ao próprio fazer a correção. Porém, ela só conseguiu reapresentar os originais em 1955, quando finalmente foram aceitos.

Em 1959, Chico Xavier encontrou-se com Yvonne em um evento, na Federação Espírita Brasileira, quando este diz a ela que André Luiz, mandara um recado à médium, dizendo que “essa obra em seu gênero era a melhor dos últimos cinquenta anos, e também dos próximos cinquenta anos”.

 O Desencarne

Sempre humilde, terna e vivaz, morava desde 1952 num casarão em Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro, em companhia de sua irmã casada, Amália Pereira Lourenço, também espírita.

Na noite de 9 de março de 1984, vitimada por trombose, desencarnou durante uma cirurgia a que se submetera no Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro. Seu corpo foi sepultado no Cemitério de Inhaúma. Tinha 78 anos e mantivera-se solteira, cumprindo condignamente o mandato mediúnico exercido com amor e total devotamento ao semelhante.

Dona Yvonne, como era carinhosamente chamada, foi sem dúvida uma das maiores médiuns da história do Espiritismo no Brasil. É um exemplo a ser seguido. Pelo seu extraordinário trabalho é conhecida como o “Chico Xavier de saias”.

Por Gilson Tadeu Pereira

Bibliografia e fontes:

  • Luz do Consolador, autobiográfico, reunindo trinta e quatro artigos escritos por ela para a revista Reformador, da FEB, de 1960 a 1980
  • Recordações da Mediunidade, autobiográfico
  • Federação Espírita do Paraná, Biografias
  • Devassando o Invisível, capítulo III, pelo Espírito Charles, psicografia de Yvonne Pereira.

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