Não raro lemos notícias sobre contínuas demonstrações de preconceito nas suas mais variadas formas, seja o preconceito racial, sexual, religioso, contra pessoas com alguma deficiência física e contra a mulher, no processo chamado de misoginia.
Allan Kardec ensina na Gênese, uma das obras básicas da codificação, que “com a reencarnação derruba-se o preconceito pois todo espírito pode nascer rico ou pobre, livre ou escravo, homem ou mulher” (ou branco, ou negro, ou asiático, ou com deficiência física). Assim, não cabe ao espírita ter qualquer tipo de preconceito.
A etimologia da palavra preconceito é uma junção de “pré”, que dá a ideia de algo anterior, e “conceito”, aquilo que se entende em respeito a algo. Em linhas gerais, preconceito é um rótulo que se atribui sem o conhecimento dos fatos por meio de uma atitude discriminatória perante pessoas, culturas, religiões, lugares e tradições diferentes ou estranhas. É julgar algo como inferior tudo aquilo que seja diferente.
O insigne Herculano Pires, escritor, filósofo, tradutor das obras de Kardec e autor de mais de 50 obras, traz importante comentário em seu livro O Homem Novo: “o preconceito contra o espiritismo é muito semelhante à prevenção contra o cristianismo no mundo antigo. Aqueles que condenam o espiritismo não o conhecem, em geral nos acusam [os espíritas] de endemoniados, feiticeiros e coisas do gênero”.
O preconceito contra o Espiritismo tomou proporções de relevância quando o movimento começou a ganhar espaço em nosso país. Em 1873 “O Jornal do Commercio” acusou-o de fabricar loucos e pediu a interferência da polícia “pois é uma epidemia mais poderosa que a febre amarela”, finalizava o jornal.
Em 1890, a perseguição se intensifica através do decreto 847 que promulga o Código Penal da República e associa a sua prática ao curandeirismo e magia. O artigo 157 reza: “É crime praticar o Espiritismo, magia e sortilégios, usar de talismãs e cartomancias para despertar o sentimento de ódio ou de amor para fascinar a credulidade pública”. A pena para aqueles que infringissem o decreto era de prisão de um a seis meses.
Em 1891, o periódico “O Cruzeiro“ informa que havia sido dado uma ordem para que as atividades da “Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade” fossem proibidas, sendo essa determinação extensiva a todos os centros filiados a ela.
Com o passar do tempo, as pressões e o preconceito contra o Espiritismo foram deixados de lado e em 1894 a doutrina era praticada sem protestos.
Em 1931, ocorre um fato que mudaria as ideias preconcebidas com relação ao que é realmente a doutrina codificada por Kardec. Naquele ano, Emmanuel se apresenta a Chico Xavier e comunica a ele sobre a sua edificante obra junto à doutrina, a de trazer a lume várias obras através da mediunidade. Assim, em 1932 é lançado pela FEB o primeiro dos mais de 400 livros psicografados pelo médium mineiro, “Parnaso de Além Túmulo“, uma coletânea de poesias de autoria de nomes consagrados, tais como: Casimiro de Abreu, Augusto dos Anjos e Olavo Bilac.
Porém, a perseguição ao Espiritismo somente encerrou-se quando em 1946 o chamado Estado Novo chegou ao fim, instituindo-se no Brasil a liberdade religiosa.
O preconceito racial contra os negros ainda é uma das formas mais presentes e que causa grande indignação. Em 2020 nos EUA, o jovem George Floyd foi morto por um policial ao ser esganado pelo joelho do mesmo comprimindo o seu pescoço até a morte. A cena foi filmada e fotografada por transeuntes que de posse de seus celulares registraram o ocorrido. Sobre Floyd recaia a suspeita de que ele tentara comprar algo com uma nota falsa de US$ 20,00. Perdura ainda nesse país a forte rejeição contra o negro, cabendo ao cinema retratar essa dura realidade em alguns filmes como “Estrelas Além do Tempo” (Hiden Figures, 2016) e “Mississipi em Chamas“ (Mississippi Burning, 1988).
Em 1865 surge no interior do Tennessee a temida Ku Klux Klan, organização voltada para manter a supremacia branca. Promovia atentados contra os negros espancando-os e até levando alguns à forca em praça pública. Estima-se que até 20.000 pessoas tenham sido vítimas da Klan. Hoje, o movimento ainda existe, embora muito enfraquecido.
Mesmo no Brasil, país conhecido por receber bem os estrangeiros, o preconceito racial é muito presente. Os negros são as maiores vítimas desse sentimento, até porque as origens dele remontam à época do Brasil Colônia e do consequente período da escravidão quando eram considerados como seres inferiores. Ainda ganham menos que os brancos ao exercerem a mesma função e são as principais vítimas de homicídios por 100 mil habitantes, 37,8% contra 13,8% em todo o território nacional.
Em 1814, surgiu um movimento que sugeria o “branqueamento” da população brasileira. Essa ideologia era tida como uma solução para o excesso de negros. Acreditava-se que os negros iriam avançar cultural e geneticamente ou mesmo desaparecer totalmente em função da miscigenação entre brancos e negros. A elite branca acreditava na época que o sangue branco era superior e inevitavelmente iria clarear as demais raças, dando destaque para os imigrantes alemães, italianos e poloneses. Assim, africanos e afrodescendentes eram vistos como bárbaros e os asiáticos como indolentes. Na esteira desse pensamento insano, chineses, japoneses e coreanos sofriam insultos e agressões. A isso se dá o nome de preconceito amarelo, pela característica física, da pele branca, levemente amarelada.
O preconceito revela-se também na xenofobia (do grego xenos = estranho, estrangeiro; e phobos = medo do estrangeiro). Esse sentimento pode aplicar-se a pessoas do mesmo país, vindas de outros locais. Isso nos faz lembrar que os nordestinos acabam ganhando apelidos pejorativos, tais como “paraíba“ ou “baiano”.
Os homossexuais são vítimas de chacota e incompreensão. Na maioria das vezes são espíritos que faliram no campo do sexo, que abusaram de suas faculdades e vem agora com a difícil tarefa de redimirem-se dos seus erros. Ao longo da história sempre foram perseguidos, humilhados e queimados na fogueira. No século IV, o imperador Constantino após a sua conversação ao cristianismo mandava decapitá-los. Aos homossexuais foi atribuída a culpa pelo surgimento da peste negra, na segunda metade do século XIV, que culminou com a morte de 24 milhões de pessoas. Uma acusação absurda e injustificável. Na Alemanha nazista, serviam como cobaias para os terríveis testes feitos nos campos de concentração. Estima-se a morte de 15.000 pessoas vitimadas por essa loucura.
O preconceito é um sentimento inferior que deveria ser extirpado do seio da humanidade. Uma forma de dar um fim a ele é por meio da educação. Cabe aos pais orientar os filhos no sentido de que as diferenças sejam respeitadas, as religiosas, de cor, de nacionalidade, de opção sexual. É preciso mostrar a eles que somos todos seres humanos e que na essência somos todos iguais. Lembrando os ensinamentos do Evangelho segundo o Espiritismo, em seu capítulo XVII: “o homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças nem de crenças, porque em todos os homens vê irmãos seus”.
Por Gilson Tadeu Pereira
