O insigne Leon Denis foi pensador espírita, médium e um dos principais divulgadores do Espiritismo, depois do passamento de Kardec. Em seu livro No Invisível de 1901, ele traz um importante ensinamento no capítulo VII, O Espiritismo e a Mulher:
“É à mulher que estão outorgadas as mais belas faculdades psíquicas. Daí o eminente papel que lhe está reservado na divulgação do Espiritualismo [Espiritismo]. No que se refere aos poderes íntimos, à intuição e à adivinhação, sempre foi ela superior ao homem. É a mulher que, desde o berço, modela a alma das gerações. É ela que faz os heróis, os poetas, os artistas, cujos feitos e obras fulguram através dos séculos. É sobretudo por intermédio da mulher que se assegura a comunhão com a vida invisível. A grande sensibilidade da mulher a constitui médium por excelência, capaz de traduzir os pensamentos, os sofrimentos das almas, os altos ensinos dos espíritos celestes”.
A Atuação nas Casas Espíritas
No Censo de 2022, a pesquisa apontou que a participação das mulheres na prática do Espiritismo é maior do que a dos homens, representando 60,6% do total. E observamos que atuam firmemente como médiuns ostensivas, no ensino da doutrina, palestrantes, passistas, na assistência social, evangelização infantil e infanto-juvenil, ministram cursos profissionalizantes, são dirigentes de estudos e de trabalhos, palestrantes, passistas, até mesmo assumindo cargos na diretoria e a presidência dos centros espíritas.
São trabalhadoras valorosas, abnegadas, administrando com raro talento a vida familiar, muitas vezes enfrentando resistências daqueles que não aceitam e não entendem o seu trabalho edificante. Porém, com coragem e determinação, nunca deixam de realizar as suas atividades, de praticar o bem. São todas grandes personagens anônimas e um exemplo a ser seguido.

As irmãs Fox
As irmãs Fox entram na galeria de mulheres na prática espírita como uma menção honrosa, pois não eram espíritas, até porque na época em que se sucederam os acontecimentos, o Espiritismo não havia ainda sido codificado.
Em Hydesville, Nova York, em 1848, elas protagonizaram um fato que é considerado como os primórdios do espiritualismo moderno, quando Kate, de 11 anos, Leah de 16 e Margareth de 14, mudam-se com os seus pais para uma casa de madeira, tida como assombrada, pois estranhos acontecimentos ali ocorriam. À noite, pancadas faziam-se ouvir, e as meninas destemidamente – embora o susto inicial – respondiam as pancadas, estabelecendo um “diálogo”, quando a letra A correspondia a uma pancada e a letra B, a duas, e assim por diante.
O espírito que lá estava, e que promovia os ruídos, fez-se entender, informando chamar-se Charles Rosna, e havia sido assassinado no local pelo ex-morador do imóvel, sendo emparedado na adega. Tempos depois, em procura feita pelo pai das meninas, John Fox, este ao derrubar uma parede, encontrou ali um esqueleto. O episódio foi uma constatação indubitável da imortalidade da alma, sobre a realidade do contato entre os dois planos e, é claro, da existência do mundo dos espíritos.
Conhecedor do fato, Allan Kardec, anos depois, realizou uma profunda pesquisa sobre o fenômeno mediúnico, vindo depois a codificar o Espiritismo.
Amélie Gabrielle Boudet (1795/1883)
A Sra. Kardec era uma pessoa doce, meiga, mas de uma fibra invejável. Nascida em Thiais, na França, era educadora, professora de Letras e Belas Artes, uma mulher muito culta, numa época em que poucas mulheres se dedicavam ao estudo. Havia recusado alguns pretendentes, e só mesmo Kardec era o homem certo, com o qual se casaria em 6 de fevereiro de 1832.
Amélie apoiou incansavelmente a Kardec, cuidando da correspondência cujo volume era enorme. Ajudava também nas sessões mediúnicas e, principalmente, nos momentos mais difíceis diante das críticas e das calúnias, sofridas pelo codificador.
Participou ativamente da tarefa de divulgar o Espiritismo. É autora de três livros: Contos Primaveris (1825), Noções de Desenho (1826), e O Essencial em Belas Artes (1826). Após o desencarne de Kardec, assumiu a responsabilidade pela continuidade da doutrina, administrando a Revista Espírita, até sua morte em 1883.
Yvonne do Amaral Pereira (1900/1984)
Yvonne desenvolveu vários tipos de mediunidade. Na qualidade de médium receitista, trabalhava até de madrugada recebendo receitas através de psicografia conforme solicitado.
Era também passista de cura, condição essa que possibilitava a ela promover o restabelecimento da saúde do paciente, sem a necessidade do uso de medicamentos.
Como médium de desdobramento, durante o sono do corpo físico, era levada ao plano espiritual e lá tinha contato com entidades que a auxiliavam, além de mostrarem a ela os locais e os personagens que mais tarde seriam retratados em seus livros.
Psicografou 18 obras, entre elas: Nas telas do Infinito, Amor e Ódio, A Tragédia de Santa Maria, e a mais famosa delas, Memórias de um Suicida, pelo Espírito Camilo Castelo Branco, obra considerada como definitiva dentro do tema.
(Para mais detalhes sobre a vida e obra de Yvonne Pereira, sugerimos a leitura da matéria deste site: A Notável Médium Yvonne do Amaral Pereira.)
Adelaide Augusta Câmara (1874/1944)
Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, foi educadora, conhecida como Aura Celeste. Em 1898, o Dr. Bezerra de Menezes, então Presidente da Federação Espírita Brasileira, dá a ela uma importante orientação, que Aura segue à risca, ou seja, inicia o trabalho de psicografia no Centro Espírita Ismael, no Rio de Janeiro, vindo a atuar também como médium receitista.
Segundo o autor Zêus Wantuil, em seu livro Grandes Espíritas do Brasil, Aura tinha ainda outros tipos de mediunidade: psicofonia, vidência, cura e bicorporiedade. É autora de oito livros, dentre os quais: Vozes d´Alma, Sentimentais, e Palavras Espíritas.
Em 1927, torna-se uma das fundadoras do asilo para órfãos, João Evangelista, propiciando instrução para inúmeros jovens, até o seu desencarne em 1944. Certa feita ela declarou: “Ser mãe de órfãos, graça do céu, não trocaria por nenhuma riqueza deste mundo”.
Anália Franco (1853/1919)
Nascida em Resende, no Rio de Janeiro, foi professora, jornalista, escritora e filantropa espírita. Teve uma vida toda dedicada à educação, pela sua obra é conhecida como a Grande Dama da Educação Brasileira.
Em 1871, com a promulgação da Lei do Ventre Livre, os filhos de mulheres escravas nascidos a partir daquele ano estavam livres da escravidão, ficando sob o domínio dos senhores de suas mães, até completarem 8 anos de idade. Embora tenha sido um prenúncio da abolição que viria em 1888, criou-se um problema: os fazendeiros não tinham interesse em ficar com as crianças, pois elas não lhe davam lucros financeiros, com isso, muitos desses pobres meninos iam para as ruas mendigar. Condoída com essa situação, Anália Franco escreveu cartas para diversas esposas de fazendeiros, pedindo amparo a essas crianças. Consegue assim, uma casa cedida por uma delas, e instala ali uma escola primária. Com a negativa da proprietária em aceitar crianças brancas juntas com afro descendentes, Anália entrega o imóvel e aluga uma casa velha na cidade dando continuidade à escola.
Em 1901, realiza a sua principal obra, funda a Associação Beneficente e Instrutiva em São Paulo, na capital. O objetivo era o de amparar, instruir e educar as crianças indigentes da capital. Seis anos depois, a entidade já mantinha 22 escolas maternais, duas escolas noturnas, creches, orfanatos e centros de atendimento médico. Nos momentos mais difíceis, Anália doava grande parte de seu salário como professora pública para suprir as despesas da Associação.
Anália fundou ainda 71 escolas, 2 albergues, 23 orfanatos e escreveu 3 livros: A Égide Materna, A Filha Adotiva, e A Filha do Artista. Tinha como lema de vida, uma frase que sempre repetia: “Conceber o bem não basta, é preciso fazê-lo frutificar”.
Zilda Gama (1878/1969)
Mineira de Juiz de Fora, foi professora primária, e ainda muito jovem, aos 24 anos, fica órfã e assume a direção da casa, cuidando de cinco irmãos menores e depois, de cinco sobrinhos, também órfãos. Amparada, sente a presença de espíritos e recebe mensagens de seu pai e irmã, que a aconselhavam, confortavam e encorajavam a suportar os momentos difíceis pelos quais estava passando.
Em 1912, aos 34 anos, recebe uma mensagem de Allan Kardec, que dizia: “Sobre a tua fronte está suspenso um raio luminoso que te guiará através de todas as dificuldades, de todos os obstáculos, e será tua glória ou tua condenação, conforme o desempenho que deres aos seus encargos psíquicos. Tenha coragem em todos os seus deveres e serás triunfante”.
Mais tarde, o codificador enviaria a ela outras mensagens, dando origem ao livro “Diário dos Invisíveis”, de 1929. Psicografou 10 livros, alguns de Victor Hugo, como “Do Calvário ao Infinito”. Certa feita, o autor francês informou a Divaldo que Zilda Gama era a reencarnação de sua filha Leópoldine Hugo, que havia se afogado aos 19 anos, junto com o seu marido, Charles Vacquirie, quando o barco em que estavam virou e afundou no Rio Sena.
Zilda Gama é considerada pioneira pois foi a primeira médium de psicografia a receber tão vasta obra do plano espiritual.
Benedita Fernandes (1882/1947)
Natural de Cunha, estado de São Paulo, era muito pobre e semianalfabeta, mesmo assim com enorme tenacidade, tornou-se a pioneira da assistência social espírita no noroeste de São Paulo ao fundar A Associação Das Senhoras Espíritas Cristãs em Araçatuba. Em 1932, desta obra, surgiu o Sanatório Hospital Psiquiátrico Benedita Fernandes. Benedita é uma das pioneiras dos hospitais psiquiátricos espíritas e mantinha o albergue noturno Dr. Plácido Rocha.
Em 1933, funda A Casa da Criança, para órfãos, na qualidade de trabalhadora espírita era passista e atuava na evangelização Infantil.
Uma ocasião, foi convidada para um evento, e naquele dia fazia muito calor, então apresentou-se vestindo um casaco de frio e começou a transpirar, obviamente. Algumas pessoas presentes comentaram o fato de uma forma irônica, mas momentos depois, Benedita tirou o casaco e todos viram que ela trajava um vestido muito puído, e se calaram.
Certa feita, nos anos 1930, as autoridades pediram ao então presidente Getúlio Vargas que inibisse as atividades espíritas em expansão, mas a reposta foi incisiva: “Como posso fazer isso, se há uma pessoa tão bondosa como Benedita Fernandes atendendo a órfãos e a doentes mentais?”, e não tomou nenhuma atitude. Pelo seu enorme trabalho junto ao próximo é chamada de A Dama da Caridade.
Amélia Augusta do Sacramento Rodrigues (1861/1926)
Nascida no município de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, foi professora, poetisa, escritora, teatróloga. Ela afirmava que: “O jovem precisa de educação moral que é o princípio fundamental da disciplina social; educar é formar no homem as mais duradouras forças da ordem social”. Por esta época funda o Instituto Maternal Maria Auxiliadora, que mais tarde transformou-se na Ação dos Expostos. Ditou do plano espiritual 12 livros, psicografados por Divaldo Franco, tais como: Primícias do Reino, Luz do Mundo, e Pelos Caminhos de Jesus.
Isabel Salomão de Campos (1924/2024)
Natural de Rochedo Minas, em Minas Gerais, ainda jovem, foi apresentada ao espiritismo no final dos anos 1930, iniciando os trabalhos junto à mediunidade. Fundadora junto com o seu marido Ramiro Monteiro de Campos do centro espírita A Casa do Caminho, em 1974, que além de outras atividades, retirou das ruas mais de 500 crianças. Por duas décadas o centro prestou atendimentos a famílias em vulnerabilidade social. Mais tarde, em 1979, criou o Plantão de Socorro Espiritual, com impressionantes 500 atendimentos por dia. A Casa do Caminho continua em atividade até hoje, prestando indispensável trabalho junto à caridade material e moral.
E há ainda tantas outras grandes mulheres que também deram sua enorme cooperação ao espiritismo, como os dois nomes abaixo citados, cuja história pode ser lida neste site:
- Auta de Souza, a Poetisa Rediviva
- Eusápia Palladino, a Médium de Efeitos Físicos mais Estudada da História
Por Gilson Tadeu Pereira.
Bibliografia
- FEP – Federação Espírita do Paraná
- UEME – União Espírita de Minas Gerais
- Anália Franco, O Anjo da Caridade, por Roque Jacintho
- Kardec, Irmãs Fox e outros, por Jorge Rizzini
